"Somos todos retalhos de uma textura tão disforme e diversa que cada pedaço, cada momento, faz o seu jogo. E existem tantas diferenças entre nós e nós próprios como entre nós e os outros."
Michel de Montaigne
imagens
as imagens mostradas aqui são cacos colhidos, na sua grande maioria, de sites da internet. existem cacos colhidos ao acaso, que posso ter deixado de mencionar onde os colhi, tal minha ignorância ou encantamento. desculpem por isso. algumas imagens são minhas, do meu imenso baú de memórias...
Já lhe dei meu corpo, minha alegria Já estanquei meu sangue quando fervia Olha a voz que me resta Olha a veia que salta Olha a gota que falta pro desfecho da festa Por favor
Deixe em paz meu coração Que ele é um pote até aqui de mágoa E qualquer desatenção, faça não Pode ser a gota dágua
“Todas as palavras tomadas literalmente são falsas. A verdade mora no silêncio que existe em volta das palavras. Prestar atenção ao que não foi dito, ler as entrelinhas. A atenção flutua: toca as palavras sem ser por elas enfeitiçada. Cuidado com a sedução da clareza! Cuidado com o engano do óbvio!” Rubem Alves
sábado, 26 de dezembro de 2009
Apago todas as mensagens. Menos as tuas. Guardo a tua voz em pequenas doses e, dia sim dia não, ouço-as todas de seguida. Sinto-me demasiado incapaz para falar contigo o que quer que seja. Não sei onde estás. Não quero saber. Tenho medo de saber mais do que sei.
Uma dor de cada vez basta.
Pedro Paixão.
Queria muito chorar, deveras estou chorando, às vésperas do nascimento do Senhor, eu que estremeço recém-nascidos. Estou achando o mundo triste, querendo pai e mãe, eu também. Corália disse: você é tão criativa! E sou mesmo, poderia inventar agora um sofrimento tão insuportável que murcharia tudo à minha volta. Mas não quero. E ainda que quisesse, por destino, não posso. Este musgo entre as pedras não consente, é muito verde. E esta areia. São bonitos demais!
O amor prefere a luz das velas. Talvez seja isso, tudo que desejamos de uma pessoa amada: Que ela seja luz suave que nos ajude a suportar o terror da noite. Sob a luz do amor que ilumina modesta e pacientemente, o escuro já não assusta tanto.
Manhãs de domingo... voce trazia, nas manhãs de domingo, a minha vida colorida, a minha vida feliz, a minha alegria em suas mãos. E era doído e bom esperar pelas manhãs de domingos.
Perdi você, perdi as manhãs de domingo...
Quando a saudade aperta, encosto o ouvido no tempo e ouço seus passos, sinto seu cheiro, quase sinto sua presença que era tão minha...
minhas manhãs de domingo são feitas de saudade e de esperança. tina santos
estalam-me brasas no peito, desvairadas, e respiro
com a violência de um incêndio; mas parto
antes de saber como seria. Não me perguntes
porque se mata o sol na lâmina dos dias
e o meu mundo continua à tua espera:
houve sempre coisas de esguelha nas paisagens
e amores imperfeitos – Deus tem as mãos grandes”.
Maria do Rosário Pedrosa
sexta-feira, 11 de dezembro de 2009
...diz-me o que de mim amaste noutros corpos, noutras camas, noutra pele. Prometo que não choro mas repete as palavras um dia minhas, que sem querer misturaste às tuas e levaste (...) e largaste na primeira madrugada em que me esqueceste.
Recordo-te E és a mesma Ternura quase impossível De suportar Por isso fecho os olhos (O amor faz-me recuperar incessantemente o poder da provocação. É assim que te faço arder triunfalmente onde e quando quero. Basta-me fechar os olhos) Por isso fecho os olhos E convido a noite para a minha cama Convido-a a tornar-se tocante Familiar concreta
E sob a forma desejada A noite deita-se comigo E é a tua ausência Nua nos meus braços
As cartas de amor deveriam ser fechadas com a língua. Beijadas antes de ser enviadas. Sopradas, respiradas. O esforço do pulmão capturado pelo envelope, a letra tremendo como uma pálpebra. Não a coisa isenta, neutra, mas a espuma, a gentileza, a gripe, o contágio. Porque a saliva acalma o machucado. As cartas de amor deveriam ser abertas com os dentes.
Carpinejar (Como no Céu)
sábado, 5 de dezembro de 2009
imagem de Margareth Mee
"Estou atrás do que fica atrás do pensamento. Inútil querer me classificar: eu simplesmente escapulo. Gênero não me pega mais. Além do mais, a vida é curta demais para eu ler todo o grosso dicionário a fim de por acaso descobrir a palavra salvadora. Entender é sempre limitado. As coisas não precisam mais fazer sentido. Não quero ter a terrível limitação de quem vive apenas do que é possível fazer sentido. Eu não: quero é uma verdade inventada. Porque no fundo a gente está querendo desabrochar de um modo ou de outro."
(Clarice Lispector)
Onde é que eu estava com a cabeça de acreditar em contos de fada, de achar que a gente muda o que sente e que bastaria apertar um botão que as luzes apagariam e eu voltaria a minha vida satisfatória, sem sequelas, sem registro de ocorrência? Eu não amei. Eu tenho certeza que não. Eu amei a mim mesma naquela verdade inventada. Não era amor, era uma sorte. Não era amor, era uma travessura. Não era amor, era de tarde. Não era amor, era inverno. Não era amor, era sem medo. Não era amor, era melhor..."
Martha Medeiros
quinta-feira, 3 de dezembro de 2009
terça-feira, 24 de novembro de 2009
"Esta manhã encontrei o teu nome nos meus sonhos e o teu perfume a transpirar na minha pele..."
Eu só quero que você saiba Que estou pensando em você Agora e sempre mais Eu só quero que você ouça A canção que eu fiz pra dizer Que eu te adoro cada vez mais E que eu te quero sempre em paz
Marisa Monte
Um dia ele chegou tão diferente do seu jeito de sempre chegar
Sou inquieta, áspera E desesperançada Embora amor dentro de mim eu tenha Só que eu não sei usar amor Às vezes arranho Feito farpa
Se tanto amor dentro de mim Eu tenho, mas no entanto continuo inquieta É que eu preciso que o Deus venha Antes que seja tarde demais
Corro perigo Como toda pessoa que vive E a única coisa que me espera É exatamete o inesperado
Mas eu sei Que vou ter paz antes da morte Que vou experimentar um dia O delicado da vida Vou aprender Como se come e vive O gosto da comida
Clarice Lispector
sábado, 21 de novembro de 2009
O céu estrelado vale a dor do mundo
Adélia Prado.
Fiz o caminho. Sem tomar direção, sem saber do caminho. Pé por pé, pé por si. Deixei que o caminho me escolha. Na travessia, só silêncio. O nenhuns-nada. O alegre, mesmo, era a gente viver devagarinho, miudinho, não se importando demais com coisa nenhuma. Nessa estrada, salvou-me a palavra.
João Guimarães Rosa
sexta-feira, 20 de novembro de 2009
Enfim, de minha alma restou o quê? Um amontoado de saudades. Minha alma é um ferro-velho, na sucata do mecânico João Celestioso. A saudade é uma ferrugem, raspa-se, e por baixo, onde acreditávamos limpar, estamos semeando nova ferrugem. Era o que, agora, mais me dava sofrimento. Saudade do bom corpo e não o sentir, saudade até de mijar bem do alto de mim. Saudade dos sabores da vida, desses temperos que me esperavam. Não era a refeição que eu comia, era a própria vida que era servida, em pratos sempre luzidinhos.
Mia Couto
Eu tinha vontade de fazer como os dois homens que vi sentados na terra escovando osso. No começo achei que aqueles homens não batiam bem. Porque ficavam sentados na terra o dia inteiro escovando osso. Depois aprendi que aqueles homens eram arqueólogos. E que eles faziam o serviço de escovar osso por amor. E que eles queriam encontrar nos ossos vestígios de antigas civilizações que estariam enterrados por séculos naquele chão. Logo pensei em escovar palavras. Por que eu havia lido em algum lugar que as palavras eram conchas de clamores antigos. Eu queria ir atrás dos clamores antigos que estariam guardados dentro das palavras. Eu já sabia também que as palavras possuem no corpo muitas oralidades remontadas e muitas significâncias remontadas. Eu queria então escovar as palavras para escutar o primeiro esgar de cada uma. Para escutar os primeiros sons, mesmo que ainda bígrafos. Comecei a fazer isso sentado em minha escrivaninha. Passava horas inteiras, dias inteiros fechado no quarto, trancado, a escovar palavras. Logo a turma perguntou: o que eu fazia o dia inteiro trancado naquele quarto? Eu respondi a eles, meio entresonhado, que eu estava escovando palavras, eles acharam que eu não batia bem. Então eu joguei a escova fora.
Manoel de Barros in Memórias inventadas - a infância
quarta-feira, 18 de novembro de 2009
As roseiras da tua casa deram flor. De onde está você vê?
E apenas pra saber onde é que está você?
Quando te falei eu não esperava; ou, se esperava não confessei.
Depois, sim,
esperei.
Renata Pallottini
terça-feira, 17 de novembro de 2009
Somos feitos para a memória Somos feitos para o amor e a poesia Somos feitos, quem sabe, para o esquecimento...
Jorge Luis Borges
Prometo te querer Até o amor cair Doente...
Chico Buarque
Eu quero te contar Das chuvas que apanhei Das noites que varei No escuro a te buscar.
Aquele beijo que te dei, nunca, nunca mais esquecerei... (...) Lembro de você e fico triste, até me dá vontade de chorar, de lembrar que o amor não mais existe, mas eu sempre hei de te amar!
Roberto Carlos
sexta-feira, 13 de novembro de 2009
Essa é a missão da poesia: Recuperar os pedaços perdidos de nós. Rubem Alves
quarta-feira, 11 de novembro de 2009
Mas eu gostava dele, dia mais dia, mais gostava. Diga o senhor: como um feitiço? Isso. Feito coisa-feita. Era ele estar perto de mim, e nada me faltava. Era ele fechar a cara e estar tristonho, e eu perdia meu sossego. Era ele estar por longe, e eu só nele pensava. E eu mesmo não entendia então o que aquilo era? Sei que sim. Mas não. E eu mesmo entender não queria. Acho que. Aquela meiguice, desigual que ele sabia esconder o mais de sempre. E em mim a vontade de chegar todo próximo, quase uma ânsia de sentir o cheiro do corpo dele, dos braços (...)
João Guimarães Rosa in Grande Serão: veredas.
segunda-feira, 2 de novembro de 2009
Hoje eu tenho apenas uma pedra no meu peito Exijo respeito, não sou mais um sonhador Chego a mudar de calçada Quando aparece uma flor E dou risada de um grande amor Mentira! Chico Buarque
A sua lembrança me dói tanto Eu canto pra ver Se espanto esse mal Mas só sei dizer Um verso banal Fala em você Canta você É sempre igual
Sobrou desse nosso desencontro Um conto de amor Sem ponto final Chico Buarque
domingo, 1 de novembro de 2009
Tô bem assim, bem indiferente. O coração, um cactus. Não me importo mais."
Caio Fernando Abreu
sábado, 31 de outubro de 2009
O melhor da vida foi conhecer-te
e amar-te, alheio ao correr dos anos.
Tudo o mais, que umas vezes me diverte
e outras me traz desenganos,
apenas prova que já perdi
a memória do tempo anterior a ti.
Torquato da Luz
A intenção da água é o mar
a intenção de mim és tu.
Mia Couto
Magoa-me a saudade do sobressalto dos corpos ferindo-se de ternura dói-me a distante lembrança do teu vestido caindo aos nossos pés
Magoa-me a saudade do tempo em que te habitava como o sal ocupa o mar como a luz recolhendo-se nas pupilas desatentas
Seja eu de novo a tua sombra, teu desejo, tua noite sem remédio tua virtude, tua carência eu que longe de ti sou fraco eu que já fui água, seiva vegetal sou agora gota trémula, raiz exposta
Traz de novo, meu amor, a transparência da água dá ocupação à minha ternura vadia mergulha os teus dedos no feitiço do meu peito e espanta na gruta funda de mim os animais que atormentam o meu sono
Obrigado à vida que me tem dado tanto deu-me dois olhos que, quando os abro perfeitamente distingo o preto do branco e no alto céu, o seu fundo estrelado e nas multidões, o homem que eu amo.
Obrigado à vida que me tem dado tanto deu-me o ouvido que, em toda a amplitude, grava, noite e dia, grilos e canários martelos, turbinas, latidos, chuviscos e a voz tão terna do meu bem amado.
Obrigado à vida que me tem dado tanto deu-me o som e o abecedário e, com ele, as palavras com que penso e falo mãe, amigo, irmão e luz iluminando a rota da alma de quem estou amando.
Obrigado à vida que me tem dado tanto deu-me a marcha dos meus pés cansados com eles andei por cidades e charcos, praias e desertos, montanhas e planícies pela tua casa, tua rua e teu pátio.
Obrigado à vida que me tem dado tanto deu-me o coração que todo se agita quando vejo o fruto do cérebro humano, quando vejo o bem tão longe do mal, quando vejo no fundo do teus olhos claros.
Obrigado à vida que me tem dado tanto deu-me o riso e deu-me o pranto assim eu distingo a felicidade da tristeza, os dois materiais de que é feito o meu canto e o canto de todos, que é o meu próprio canto
“A vida se retrata no tempo formando um vitral, de desenho sempre incompleto, de cores variadas, brilhantes, quando passa o sol. Pedradas ao acaso acontece de partir pedaços ficando buracos, irreversíveis. Os cacos se perdem por aí. Às vezes eu encontro cacos de vida que foram meus, que foram vivos. Examino-os atentamente tentando lembrar de que resto faziam parte. Já achei caco pequeno e amarelinho que ressuscitou de mentira, um velho amigo. Achei outro pontudo e azul, que trouxe em nuvens um beijo antigo. Houve um caco vermelho que muito me fez chorar, sem que eu lembrasse de onde me pertencera.“
Maria Antônia de Oliveira
sábado, 26 de setembro de 2009
Do tempo que me devora me nasce a fome de ser. Minha força vem da frágil flor ferida que se entreabre resgatada pelo orvalho da vida que já vivi.
Thiago de Melo
quarta-feira, 23 de setembro de 2009
Toda poesia é uma despedida. Você disse adeus e deixou em mim um vazio descomunal. Desde então, encobri minha dor com um manto azul: um amor e uma mágoa. Eu lavei meu rosto com palavras triste quando acenou-me tchau. De vez em quando, todos os olhos se voltam contra meus passos distraídos. No fundo, a espera que eu seja algo maior que eu sou. (...) Caio Fernando Abreu
'eu até já tentei ser diferente, por medo de doer, mas não tem jeito: só consigo ser igual a mim'
Ana Jácomo
“Um domingo de tarde sozinha em casa dobrei-me em dois para a frente - como em dores de parto - e vi que a menina em mim estava morrendo. Nunca esquecerei esse domingo. Para cicatrizar levou dias. E eis-me aqui. Dura, silenciosa e heróica. Sem menina dentro de mim.”
clarice lispector
quinta-feira, 17 de setembro de 2009
Saudade Via você na janela na distância, na solidão na penumbra do amanhecer. Via você na noite, nas estrelas, nos planetas, nos mares, no brilho do sol e no anoitecer. Via você no ontem , no hoje, no amanhã... ... Que saudade...
... Se você fosse chuva Eu me deixava molhar de prazer Dançava na rua pra ter Minha roupa bem molhada Minha alma encharcada Se chovesse você
Eliana Printes
domingo, 6 de setembro de 2009
O Menino que Carregava Água na Peneira . Tenho um livro sobre águas e meninos. Gostei mais de um menino que carregava água na peneira. A mãe disse que carregar água na peneira era o mesmo que roubar um vento e sair correndo com ele para mostrar aos irmãos. A mãe disse que era o mesmo que catar espinhos na água O mesmo que criar peixes no bolso.
O menino era ligado em despropósitos. Quis montar os alicerces de uma casa sobre orvalhos.
A mãe reparou que o menino gostava mais do vazio do que do cheio. Falava que os vazios são maiores e até infinitos. Com o tempo aquele menino que era cismado e esquisito porque gostava de carregar água na peneira Com o tempo descobriu que escrever seria o mesmo que carregar água na peneira. No escrever o menino viu que era capaz de ser noviça, monge ou mendigo ao mesmo tempo. O menino aprendeu a usar as palavras. Viu que podia fazer peraltagens com as palavras. E começou a fazer peraltagens.
Foi capaz de interromper o vôo de um pássaro botando ponto final na frase. Foi capaz de modificar a tarde botando uma chuva nela. O menino fazia prodígios. Até fez uma pedra dar flor!
A mãe reparava o menino com ternura. A mãe falou: Meu filho você vai ser poeta. Você vai carregar água na peneira a vida toda. Você vai encher os vazios com as suas peraltagens e algumas pessoas vão te amar por seus despropósitos
"Chaminé em minha casa seria para entrar o céu e não para sair fumaça." Mia Couto
"Eu revirei tuas páginas até encontrar as palavras que falavam de mim. Desencapei teu livro em busca de uma dedicatória qualquer em vão: só havia silêncios. Reli todas as notas do autor e do revisor. Não havia respostas. Não havia entrelinhas. Procurei nos índices e nos anexos. Nada. No livro desbotado e amarelecido de tua vida nenhuma palavra sobre mim."
Clara Vasconcellos
domingo, 23 de agosto de 2009
não se encontrarão os meus olhos nos teus olhos. Já não se adoçará junto a ti a minha dor, mas por onde for levarei o teu olhar e para onde fores levarás a minha dor."