imagens

as imagens mostradas aqui são cacos colhidos, na sua grande maioria, de sites da internet. existem cacos colhidos ao acaso, que posso ter deixado de mencionar onde os colhi, tal minha ignorância ou encantamento. desculpem por isso. algumas imagens são minhas, do meu imenso baú de memórias...







sábado, 16 de janeiro de 2010




Por enquanto,

estou inventando a tua presença .


Clarice Lispector

terça-feira, 29 de dezembro de 2009

gota d'agua




Já lhe dei meu corpo, minha alegria
Já estanquei meu sangue quando fervia
Olha a voz que me resta
Olha a veia que salta
Olha a gota que falta pro desfecho da festa
Por favor

Deixe em paz meu coração
Que ele é um pote até aqui de mágoa
E qualquer desatenção, faça não
Pode ser a gota dágua

Chico buarque

domingo, 27 de dezembro de 2009

Palavras



“Todas as palavras tomadas literalmente são falsas. A verdade mora no silêncio que existe em volta das palavras. Prestar atenção ao que não foi dito, ler as entrelinhas. A atenção flutua: toca as palavras sem ser por elas enfeitiçada. Cuidado com a sedução da clareza! Cuidado com o engano do óbvio!”
Rubem Alves

sábado, 26 de dezembro de 2009




Apago todas as mensagens. Menos as tuas. Guardo a tua voz em pequenas doses e, dia sim dia não, ouço-as todas de seguida. Sinto-me demasiado incapaz para falar contigo o que quer que seja. Não sei onde estás. Não quero saber. Tenho medo de saber mais do que sei.

Uma dor de cada vez basta.

Pedro Paixão.



Queria muito chorar,
deveras estou chorando,
às vésperas do nascimento do Senhor,
eu que estremeço recém-nascidos.
Estou achando o mundo triste,
querendo pai e mãe, eu também.
Corália disse: você é tão criativa!
E sou mesmo, poderia inventar agora um sofrimento tão insuportável que murcharia tudo à minha volta. Mas não quero. E ainda que quisesse, por destino, não posso. Este musgo entre as pedras não consente, é muito verde. E esta areia. São bonitos demais!

Adélia Prado

quinta-feira, 24 de dezembro de 2009

quarta-feira, 16 de dezembro de 2009


O amor prefere a luz das velas.
Talvez seja isso, tudo que desejamos
de uma pessoa amada: Que ela seja
luz suave que nos ajude
a suportar o terror da noite.
Sob a luz do amor que ilumina
modesta e pacientemente,
o escuro já não assusta tanto.

Rubem Alves

segunda-feira, 14 de dezembro de 2009

domingo




Manhãs de domingo...
voce trazia, nas manhãs de domingo,
a minha vida colorida,
a minha vida feliz,
a minha alegria em suas mãos.
E era doído e bom
esperar pelas manhãs de domingos.

Perdi você,
perdi as manhãs de domingo...

Quando a saudade aperta, encosto o ouvido no tempo e
ouço seus passos, sinto seu cheiro,
quase sinto sua presença que era tão minha...

minhas manhãs de domingo são feitas de saudade
e de esperança.
tina santos

domingo, 13 de dezembro de 2009

O meu mundo tem estado à tua espera



...


Se ouço falar de ti, comove-me o teu nome

(mas nem pensar em suspirá-lo ao teu ouvido);

se me dizem que vens, o corpo é uma fogueira –

estalam-me brasas no peito, desvairadas, e respiro

com a violência de um incêndio; mas parto

antes de saber como seria. Não me perguntes



porque se mata o sol na lâmina dos dias

e o meu mundo continua à tua espera:

houve sempre coisas de esguelha nas paisagens

e amores imperfeitos – Deus tem as mãos grandes”.


Maria do Rosário Pedrosa

sexta-feira, 11 de dezembro de 2009



...diz-me o que de mim amaste noutros corpos,
noutras camas, noutra pele.
Prometo que não choro mas repete
as palavras um dia minhas, que sem querer
misturaste às tuas e levaste (...)
e largaste na primeira madrugada
em que me esqueceste.

Adap. Alice Vieira

quinta-feira, 10 de dezembro de 2009

Ternura quase impossível





Recordo-te
E és a mesma
Ternura quase impossível
De suportar
Por isso fecho os olhos
(O amor faz-me recuperar incessantemente o poder da
provocação. É assim que te faço arder triunfalmente
onde e quando quero. Basta-me fechar os olhos)
Por isso fecho os olhos
E convido a noite para a minha cama
Convido-a a tornar-se tocante
Familiar concreta

E sob a forma desejada
A noite deita-se comigo
E é a tua ausência
Nua nos meus braços


Alexandre O´Neill

terça-feira, 8 de dezembro de 2009

cartas de amor


As cartas de amor deveriam ser fechadas com a língua.
Beijadas antes de ser enviadas.
Sopradas, respiradas.
O esforço do pulmão
capturado pelo envelope, a letra tremendo
como uma pálpebra.
Não a coisa isenta, neutra,
mas a espuma, a gentileza, a gripe, o contágio.
Porque a saliva
acalma o machucado.
As cartas de amor
deveriam ser abertas
com os dentes.


Carpinejar (Como no Céu)

sábado, 5 de dezembro de 2009


imagem de Margareth Mee



"Estou atrás do que fica atrás do pensamento. Inútil querer me classificar: eu simplesmente escapulo. Gênero não me pega mais. Além do mais, a vida é curta demais para eu ler todo o grosso dicionário a fim de por acaso descobrir a palavra salvadora. Entender é sempre limitado. As coisas não precisam mais fazer sentido. Não quero ter a terrível limitação de quem vive apenas do que é possível fazer sentido. Eu não: quero é uma verdade inventada. Porque no fundo a gente está querendo desabrochar de um modo ou de outro."

(Clarice Lispector)

Onde é que eu estava com a cabeça de acreditar em contos de fada,
de achar que a gente muda o que sente
e que bastaria apertar um botão
que as luzes apagariam e eu voltaria a minha vida satisfatória,
sem sequelas, sem registro de ocorrência?
Eu não amei.
Eu tenho certeza que não.
Eu amei a mim mesma naquela verdade inventada.
Não era amor, era uma sorte.
Não era amor, era uma travessura.
Não era amor, era de tarde.
Não era amor, era inverno.
Não era amor, era sem medo.
Não era amor, era melhor..."

Martha Medeiros

quinta-feira, 3 de dezembro de 2009

terça-feira, 24 de novembro de 2009




"Esta manhã encontrei o teu nome nos meus sonhos
e o teu perfume a transpirar na minha pele..."

Maria do Rosário Pedreira

domingo, 22 de novembro de 2009

pensando




Eu só quero que você saiba
Que estou pensando em você
Agora e sempre mais
Eu só quero que você ouça
A canção que eu fiz pra dizer
Que eu te adoro cada vez mais
E que eu te quero sempre em paz

Marisa Monte



Um dia ele chegou tão diferente do seu jeito de sempre chegar

Chico Buarque

cidinha





Sou inquieta, áspera
E desesperançada
Embora amor dentro de mim eu tenha
Só que eu não sei usar amor
Às vezes arranho
Feito farpa

Se tanto amor dentro de mim
Eu tenho, mas no entanto continuo inquieta
É que eu preciso que o Deus venha
Antes que seja tarde demais

Corro perigo
Como toda pessoa que vive
E a única coisa que me espera
É exatamete o inesperado

Mas eu sei
Que vou ter paz antes da morte
Que vou experimentar um dia
O delicado da vida
Vou aprender
Como se come e vive
O gosto da comida



Clarice Lispector

sábado, 21 de novembro de 2009


O céu estrelado vale a dor do mundo

Adélia Prado.




Fiz o caminho. Sem tomar direção, sem saber do caminho.
Pé por pé, pé por si. Deixei que o caminho me escolha.
Na travessia, só silêncio. O nenhuns-nada.
O alegre, mesmo, era a gente viver devagarinho, miudinho,
não se importando demais com coisa nenhuma.
Nessa estrada, salvou-me a palavra.

João Guimarães Rosa

sexta-feira, 20 de novembro de 2009




Enfim, de minha alma restou o quê? Um amontoado de saudades. Minha alma é um ferro-velho, na sucata do mecânico João Celestioso. A saudade é uma ferrugem, raspa-se, e por baixo, onde acreditávamos limpar, estamos semeando nova ferrugem. Era o que, agora, mais me dava sofrimento. Saudade do bom corpo e não o sentir, saudade até de mijar bem do alto de mim. Saudade dos sabores da vida, desses temperos que me esperavam. Não era a refeição que eu comia, era a própria vida que era servida, em pratos sempre luzidinhos.




Mia Couto



Eu tinha vontade de fazer como os dois homens que vi sentados na terra escovando osso. No começo achei que aqueles homens não batiam bem. Porque ficavam sentados na terra o dia inteiro escovando osso. Depois aprendi que aqueles homens eram arqueólogos. E que eles faziam o serviço de escovar osso por amor. E que eles queriam encontrar nos ossos vestígios de antigas civilizações que estariam enterrados por séculos naquele chão. Logo pensei em escovar palavras. Por que eu havia lido em algum lugar que as palavras eram conchas de clamores antigos. Eu queria ir atrás dos clamores antigos que estariam guardados dentro das palavras. Eu já sabia também que as palavras possuem no corpo muitas oralidades remontadas e muitas significâncias remontadas. Eu queria então escovar as palavras para escutar o primeiro esgar de cada uma. Para escutar os primeiros sons, mesmo que ainda bígrafos. Comecei a fazer isso sentado em minha escrivaninha. Passava horas inteiras, dias inteiros fechado no quarto, trancado, a escovar palavras. Logo a turma perguntou: o que eu fazia o dia inteiro trancado naquele quarto? Eu respondi a eles, meio entresonhado, que eu estava escovando palavras, eles acharam que eu não batia bem. Então eu joguei a escova fora.

Manoel de Barros in Memórias inventadas - a infância

quarta-feira, 18 de novembro de 2009


As roseiras da tua casa
deram flor.
De onde está você vê?

E
apenas pra saber
onde é que está
você?

Quando te falei
eu não esperava;
ou, se esperava
não confessei.

Depois, sim,

esperei.


Renata Pallottini

terça-feira, 17 de novembro de 2009



Somos feitos para a memória
Somos feitos para o amor e a poesia
Somos feitos, quem sabe,
para o esquecimento...


Jorge Luis Borges

Prometo te querer
Até o amor cair
Doente...

Chico Buarque


Eu quero te contar
Das chuvas que apanhei
Das noites que varei
No escuro a te buscar.

Chico Buarque

16 de novembro - aquele beijo



Aquele beijo que te dei,
nunca, nunca mais esquecerei...
(...)
Lembro de você e fico triste,
até me dá vontade de chorar,
de lembrar que o amor não mais existe,
mas eu sempre hei de te amar!

Roberto Carlos

sexta-feira, 13 de novembro de 2009



Essa é a missão da poesia:
Recuperar os pedaços perdidos de nós.
Rubem Alves

quarta-feira, 11 de novembro de 2009




Mas eu gostava dele, dia mais dia, mais gostava. Diga o senhor: como um feitiço? Isso. Feito coisa-feita. Era ele estar perto de mim, e nada me faltava. Era ele fechar a cara e estar tristonho, e eu perdia meu sossego. Era ele estar por longe, e eu só nele pensava. E eu mesmo não entendia então o que aquilo era? Sei que sim. Mas não. E eu mesmo entender não queria. Acho que. Aquela meiguice, desigual que ele sabia esconder o mais de sempre. E em mim a vontade de chegar todo próximo, quase uma ânsia de sentir o cheiro do corpo dele, dos braços (...)



João Guimarães Rosa in Grande Serão: veredas.

segunda-feira, 2 de novembro de 2009



Hoje eu tenho apenas uma pedra no meu peito
Exijo respeito, não sou mais um sonhador
Chego a mudar de calçada
Quando aparece uma flor
E dou risada de um grande amor
Mentira!
Chico Buarque

A sua lembrança me dói tanto
Eu canto pra ver
Se espanto esse mal
Mas só sei dizer
Um verso banal
Fala em você
Canta você
É sempre igual

Sobrou desse nosso desencontro
Um conto de amor
Sem ponto final
Chico Buarque

domingo, 1 de novembro de 2009



Tô bem assim, bem indiferente.
O coração, um cactus.
Não me importo mais."

Caio Fernando Abreu

sábado, 31 de outubro de 2009


O melhor da vida foi conhecer-te

e amar-te, alheio ao correr dos anos.

Tudo o mais, que umas vezes me diverte

e outras me traz desenganos,

apenas prova que já perdi

a memória do tempo anterior a ti.

Torquato da Luz

A intenção da água é o mar

a intenção de mim és tu.


Mia Couto

Magoa-me a saudade
do sobressalto dos corpos
ferindo-se de ternura
dói-me a distante lembrança
do teu vestido
caindo aos nossos pés

Magoa-me a saudade
do tempo em que te habitava
como o sal ocupa o mar

como a luz recolhendo-se
nas pupilas desatentas

Seja eu de novo a tua sombra, teu desejo,
tua noite sem remédio
tua virtude, tua carência
eu
que longe de ti sou fraco
eu
que já fui água, seiva vegetal
sou agora gota trémula, raiz exposta

Traz
de novo, meu amor,
a transparência da água
dá ocupação à minha ternura vadia
mergulha os teus dedos
no feitiço do meu peito
e espanta na gruta funda de mim
os animais que atormentam o meu sono

Mia Couto

terça-feira, 6 de outubro de 2009

Gracias por tu vida, Mercedez!



Obrigado à vida
(Violeta Parra)

Obrigado à vida que me tem dado tanto
deu-me dois olhos que, quando os abro
perfeitamente distingo o preto do branco
e no alto céu, o seu fundo estrelado
e nas multidões, o homem que eu amo.

Obrigado à vida que me tem dado tanto
deu-me o ouvido que, em toda a amplitude,
grava, noite e dia, grilos e canários
martelos, turbinas, latidos, chuviscos
e a voz tão terna do meu bem amado.

Obrigado à vida que me tem dado tanto
deu-me o som e o abecedário
e, com ele, as palavras com que penso e falo
mãe, amigo, irmão e luz iluminando
a rota da alma de quem estou amando.

Obrigado à vida que me tem dado tanto
deu-me a marcha dos meus pés cansados
com eles andei por cidades e charcos,
praias e desertos, montanhas e planícies
pela tua casa, tua rua e teu pátio.

Obrigado à vida que me tem dado tanto
deu-me o coração que todo se agita
quando vejo o fruto do cérebro humano,
quando vejo o bem tão longe do mal,
quando vejo no fundo do teus olhos claros.

Obrigado à vida que me tem dado tanto
deu-me o riso e deu-me o pranto
assim eu distingo a felicidade da tristeza,
os dois materiais de que é feito o meu canto
e o canto de todos, que é o meu próprio canto

Obrigado à Vida

segunda-feira, 28 de setembro de 2009

Vitral


“A vida se retrata no tempo
formando um vitral,
de desenho sempre incompleto,
de cores variadas,
brilhantes, quando passa o sol.
Pedradas ao acaso
acontece de partir pedaços
ficando buracos,
irreversíveis.
Os cacos se perdem
por aí.
Às vezes eu encontro
cacos de vida
que foram meus,
que foram vivos.
Examino-os atentamente tentando lembrar
de que resto faziam parte.
Já achei caco pequeno e amarelinho
que ressuscitou
de mentira, um velho amigo.
Achei outro pontudo e azul, que trouxe em nuvens
um beijo antigo.
Houve um caco vermelho
que muito me fez chorar,
sem que eu lembrasse
de onde me pertencera.“


Maria Antônia de Oliveira

sábado, 26 de setembro de 2009


Do tempo que me devora
me nasce a fome de ser.
Minha força vem da frágil
flor ferida que se entreabre
resgatada pelo orvalho
da vida que já vivi.


Thiago de Melo

quarta-feira, 23 de setembro de 2009


Toda poesia é uma despedida.
Você disse adeus e deixou em mim um vazio descomunal.
Desde então, encobri minha dor com um manto azul: um amor e uma mágoa.
Eu lavei meu rosto com palavras triste quando acenou-me tchau.
De vez em quando, todos os olhos se voltam contra meus passos distraídos.
No fundo, a espera que eu seja algo maior que eu sou. (...)
Caio Fernando Abreu

segunda-feira, 21 de setembro de 2009

...é primavera, te amo!


A primavera chegará, mesmo que ninguém mais saiba seu nome, nem acredite no calendário, nem possua jardim para recebê-la.
Cecília Meireles

sábado, 19 de setembro de 2009

Os ipês estão floridos


'eu até já tentei ser diferente,
por medo de doer, mas não tem jeito:
só consigo ser igual a mim'



Ana Jácomo


“Um domingo de tarde sozinha em casa dobrei-me em dois para a frente - como em dores de parto - e vi que a menina em mim estava morrendo. Nunca esquecerei esse domingo. Para cicatrizar levou dias. E eis-me aqui. Dura, silenciosa e heróica. Sem menina dentro de mim.”

clarice lispector

quinta-feira, 17 de setembro de 2009


Saudade
Via você na janela na distância,
na solidão na penumbra do amanhecer.
Via você na noite, nas estrelas, nos planetas,
nos mares, no brilho do sol e no anoitecer.
Via você no ontem , no hoje, no amanhã...
...
Que saudade...

Mário Quintana

quarta-feira, 16 de setembro de 2009



Não desças os degraus do sonho

Para não despertar os ponteiros

Não subas aos sótãos — onde

os deuses, por trás das suas máscaras

Ocultam o próprio enigma.

Não desças, não subas, fica.

O mistério está é na tua vida!

E é um sonho louco este nosso mundo...

Mario Quintana

(Um presente da Fabíola, amiga presente)

segunda-feira, 14 de setembro de 2009

Será que vc ainda pensa....



às vezes te odeio por quase um segundo
depois te amo mais...

terça-feira, 8 de setembro de 2009

Se chovesse você


...
Se você fosse chuva
Eu me deixava molhar de prazer
Dançava na rua pra ter
Minha roupa bem molhada
Minha alma encharcada
Se chovesse você

Eliana Printes

domingo, 6 de setembro de 2009


O Menino que Carregava Água na Peneira
.
Tenho um livro sobre águas e meninos.
Gostei mais de um menino que carregava água na peneira.
A mãe disse que carregar água na peneira era o mesmo que roubar um vento
e sair correndo com ele para mostrar aos irmãos.
A mãe disse que era o mesmo que catar espinhos na água
O mesmo que criar peixes no bolso.

O menino era ligado em despropósitos.
Quis montar os alicerces de uma casa sobre orvalhos.

A mãe reparou que o menino gostava mais do vazio do que do cheio.
Falava que os vazios são maiores e até infinitos.
Com o tempo aquele menino que era cismado e esquisito
porque gostava de carregar água na peneira
Com o tempo descobriu que escrever seria o mesmo
que carregar água na peneira.
No escrever o menino viu que era capaz de ser
noviça, monge ou mendigo ao mesmo tempo.
O menino aprendeu a usar as palavras.
Viu que podia fazer peraltagens com as palavras.
E começou a fazer peraltagens.

Foi capaz de interromper o vôo de um pássaro botando ponto final na frase.
Foi capaz de modificar a tarde botando uma chuva nela.
O menino fazia prodígios.
Até fez uma pedra dar flor!

A mãe reparava o menino com ternura.
A mãe falou: Meu filho você vai ser poeta.
Você vai carregar água na peneira a vida toda.
Você vai encher os vazios com as suas peraltagens
e algumas pessoas vão te amar por seus despropósitos

Manoel de Barros

sexta-feira, 4 de setembro de 2009

domingo, 30 de agosto de 2009


"Chaminé em minha casa seria para entrar o céu e não para sair fumaça."
Mia Couto

"Eu revirei tuas páginas
até encontrar as palavras
que falavam de mim.
Desencapei teu livro
em busca de uma dedicatória
qualquer
em vão:
só havia silêncios.
Reli todas as notas
do autor
e do revisor.
Não havia respostas. Não havia entrelinhas.
Procurei nos índices e nos anexos. Nada.
No livro desbotado e amarelecido de tua vida
nenhuma palavra sobre mim."

Clara Vasconcellos

domingo, 23 de agosto de 2009


não se encontrarão os meus olhos nos teus olhos.
Já não se adoçará junto a ti a minha dor,
mas por onde for levarei o teu olhar
e para onde fores levarás a minha dor."

(Pablo Neruda)

De quem é esta saudade
que sinto quando me vejo?


Gilka Machado

sábado, 8 de agosto de 2009