imagens

as imagens mostradas aqui são cacos colhidos, na sua grande maioria, de sites da internet. existem cacos colhidos ao acaso, que posso ter deixado de mencionar onde os colhi, tal minha ignorância ou encantamento. desculpem por isso. algumas imagens são minhas, do meu imenso baú de memórias...







sexta-feira, 27 de fevereiro de 2009


" E a tua voz ouço-a agora, vinda de longe, como o som do mar imaginado dentro de um búzio. Vejo-te através da espuma quebrada na areia das praias, num mar de Setembro, com cheiro a algas e a iodo. E de novo acredito que nada do que é importante se perde verdadeiramente. Apenas nos iludimos, julgando ser donos das coisas, dos instantes e dos outros. Comigo caminham todos os mortos que amei, todos os amigos que se afastaram, todos os dias felizes que se apagaram. Não perdi nada, apenas ilusões de que tudo podia ser meu pra sempre. "

Miguel Sousa Tavares - in Não te Deixarei Morrer

É preciso que a saudade desenhe tuas linhas perfeitas,
teu perfil exato e que, apenas, levemente, o vento
das horas ponha um frêmito em teus cabelos...


É preciso que a tua ausência trescale
sutilmente, no ar, a trevo machucado,
as folhas de alecrim desde há muito guardadas
não se sabe por quem nalgum móvel antigo...


Mas é preciso, também, que seja como abrir uma janela
e respirar-te, azul e luminoso, no ar.


É preciso a saudade para eu sentir
como sinto - em mim - a presença misteriosa da vida...
Mas quando surges és tão outro e múltiplo e imprevisto
que nunca te pareces com o teu retrato...


E eu tenho de fechar meus olhos para ver-te.
[Mario Quintana](adaptado)

domingo, 8 de fevereiro de 2009


O mundo que venci deu-me um amor

O mundo que venci deu-me um amor,
Um troféu perigoso, este cavalo
Carregado de infantes couraçados.
O mundo que venci deu-me um amor
Alado galopando em céus irados,
Por cima de qualquer muro de credo,
Por cima de qualquer fosso de sexo.
O mundo que venci deu-me um amor
Amor feito de insulto e pranto e riso,
Amor que força as portas dos infernos,
Amor que galga o cume ao paraíso.
Amor que dorme e treme. Que desperta
E torna contra mim, e me devora
E me rumina em campos de vitória...

Mário Faustino

... então os meus braços não vão ser suficientes para abraçar você
e a minha voz vai querer dizer tanta,
mas tanta coisa que eu vou ficar calada,
um tempo enorme só olhando você sem dizer nada,
só olhando e pensando,
meu Deus mas como você me dói de vez em quando.
(Caio Fernando Abreu)

segunda-feira, 19 de janeiro de 2009

domingo, 4 de janeiro de 2009

sábado, 3 de janeiro de 2009



texto incluído na imagem por tina

sexta-feira, 2 de janeiro de 2009

quinta-feira, 1 de janeiro de 2009


“Canção da mirada secreta”

Foram-se os amores que tive
ou me tiveram. Partiram
num cortejo silencioso e iluminado.
a solidão me ensina
a não acreditar na morte
nem demais na vida : cultivo
segredos num jardim onde estamos eu, os sonhos idos,
os velhos amores e os seus recados,
e os olhos deles que ainda brilham
como pedras de cor entre as raízes.

Lia Luft

sábado, 27 de dezembro de 2008




Eu não tinha este rosto de hoje,
assim calmo, assim triste, assim magro,
nem estes olhos tão vazios,
nem o lábio amargo.

Eu não tinha estas mãos sem força,
tão paradas e frias e mortas;
eu não tinha este coração
que nem se mostra.

Eu não dei por esta mudança,
tão simples, tão certa, tão fácil:
- Em que espelho ficou perdida a minha face?

Cecília Meireles

quinta-feira, 25 de dezembro de 2008


Seja eu de novo a tua sombra, teu desejo,

tua noite sem remédio

tua virtude, tua carência

eu

que longe de ti sou fraco

eu

que já fui água, seiva vegetal

sou agora gota trémula, raiz exposta



Traz

de novo, meu amor,

a transparência da água

dá ocupação à minha ternura vadia

mergulha os teus dedos

no feitiço do meu peito

e espanta na gruta funda de mim

os animais que atormentam o meu sono

Mia Couto

sexta-feira, 5 de dezembro de 2008


Os filhos crescem.
Desenha-se a existência em cada um,
os pais ficam olhando, que fazer?
E mesmo quando acertam, que é que muda?
Os filhos crescem
e não adianta se querer dar tudo,
nem a alma.
Desejam outras almas,
são outros.
Os filhos crescem.
Sem ler nossos romances para eles,
se metem em capítulos inéditos.
Já não são nós, se sentem vitoriosos.
E continuamos eles..."

(Paulo Hecker)

sábado, 29 de novembro de 2008



A sua lembrança me dói tanto
Eu canto pra ver
Se espanto esse mal
Mas só sei dizer
Um verso banal
Falar em você
Cantar você
É sempre igual

Sobrou desse nosso desencontro
Um conto de amor
Sem ponto final
Retrato sem cor
Jogado aos meus pés
E saudades fúteis
Saudades frágeis
Meros papéis


Não sei se você ainda é o mesmo
Ou se cortou os cabelos
Rasgou o que é meu
Se ainda tem saudades
E sofre como eu
Ou tudo já passou
Já tem um novo amor
Já me esqueceu

Desencontro ( Chico Buarque)

terça-feira, 25 de novembro de 2008


Eu conto as horas pra poder te ver
mas o relógio está de mal comigo.
Claudinho

sexta-feira, 21 de novembro de 2008





Voce á e rainha da dança, jovem e doce, de apenas 17 anos...
Eu amei o filme e especialmente esta cena. Toda mulher merece se sentir assim, em alguns momentos. Emocionante demais!!

terça-feira, 18 de novembro de 2008


Se as coisas são inatingíveis... ora!
Não é motivo para não querê-las...
Que tristes os caminhos se não fora
A mágica presença das estrelas!

Mario Quintana

domingo, 16 de novembro de 2008





... que eu vim pra não morrer, de tanto te esperar...

sexta-feira, 14 de novembro de 2008


Olha como a chuva cai
E molha a folha aqui na telha
Faz um som assim
Um barulinho bom
Faz um som assim
Um barulinho bom


Marisa Monte

quarta-feira, 29 de outubro de 2008



"Havia, em algum lugar, um parque cheio de pinheiros e tílias, e uma velha casa que eu amava. Pouco importava que ela estivesse distante ou próxima, que não pudesse cercar de calor o meu corpo, nem me abrigar; reduzida apenas a um sonho, bastava que ela existisse para que a minha noite fosse cheia de sua presença. Eu não era mais um corpo de homem perdido no areal. Eu me orientava. Era o menino daquela casa, cheio da lembrança de seus perfumes, cheio da fragrância dos seus vestíbulos, cheio das vozes que a haviam animado."

(Antoine de Saint-Exupéry)

terça-feira, 28 de outubro de 2008


"Difícil fotografar o silêncio.
Entretanto tentei. Eu conto:
Madrugada a minha aldeia estava morta.
Não se via ouvia um barulho, ninguém passava entre as casas.
Eu estava saindo de uma festa.
Eram quase quatro da manhã.
Ia o Silêncio pela rua carregando um bêbado.
Preparei minha máquina.
O silêncio era um carregador?
Estava carregando o bêbado.
Fotograei esse carregador.
Tive outras visões naquela madrugada.
Preparei minha máquina de novo.
Tinha um perfume de jasmim no beiral do sobrado.
Fotografei o perfume.
Vi uma lesma pregada na existência mais do que na pedra.
Fotografei a existência dela.
Vi ainda um azul-perdão no olho de um mendigo.
Fotografei o perdão.
Olhei uma paisagem velha a desabar sobre uma casa.
Fotografei o sobre.
Foi difícil fotografar o sobre.
...
A foto saiu legal."

Manoel de Barros

segunda-feira, 27 de outubro de 2008


Acordo com o teu nome nos meus lábios

- amargo beijo esse que o tempo dá sem aviso

a quem não esquece.

Maria do Rosário Pedreira

Não te quero ter, pois em meu ser tudo estaria terminado.

Quero só que surjas em mim como a fé nos desesperados.

Vinícius de Moraes

Sei que é meio idiota, mas gosto de pensar desse jeito, e se estou em pé no ônibus solto um pouco as mãos daquela barra de ferro para meu corpo balançar como se estivesse a bordo de um navio ou de você. Fecho os olhos, faz tanto bem, você não sabe. Suspiro tanto quando penso em você, chorar só choro às vezes, e é tão freqüente.

Caio Fernando Abreu

terça-feira, 14 de outubro de 2008


Deus não é a palavra Deus

Deus não é a palavra Deus

e andorinha,a palavra andorinha.

Há um poço

que não entrana palavra poço.

O amor, na palavra amor.

E Deus é tudo isso.


Carlos Nejar

sábado, 11 de outubro de 2008



Foram-se os amores que tive

ou me tiveram.

Partiram

num cortejo silencioso e iluminado.

A solidão me ensina

a não acreditar na morte

nem demais na vida: cultivo

segredos num jardim

onde estamos eu,

os sonhos idos,

os velhos amores e os seus recados,

e os olhos deles que ainda brilham

como pedras de cor entre as raízes.


(lia luft)
Mirada Secreta


Foram-se os amores que tive

ou me tiveram.

Partiram

num cortejo silencioso e iluminado.

A solidão me ensina

a não acreditar na morte

nem demais na vida:

Cultivo segredos num jardim

onde estamos eu, os sonhos idos,

os velhos amores e os seus recados,

e os olhos deles que ainda brilham

como pedras de cor entre as raízes.



Lya Luft

sexta-feira, 10 de outubro de 2008

quinta-feira, 9 de outubro de 2008


E veio o sono, vencendo a luta de horas. E no sonho estava teu abraço, tua imagem, que eu luto por lembrar detalhes que, acordada, pensava já ter esquecido. Mas no sonho estavam lá seu rosto, sorriso, pele... tudo como sempre soube, como sempre amei. Sua figura magra, suave, sua voz doce, seu riso de música e o abraço, o abraço que é o que mais me faz falta. E meu coração fez festa, tanta festa que com seu barulho eu acordei, acordei no meio do abraço tão e tantas vezes desejado... Meu coração, este bobo, sempre me traindo.


tina, cheia, transbordando de saudades.

sexta-feira, 26 de setembro de 2008

PRESENÇA

É preciso que a saudade desenhe tuas linhas perfeitas,
teu perfil exato e que, apenas, levemente,
o vento das horas ponha um frêmito em teus cabelos...
É preciso que a tua ausência trescale sutilmente,
no ar, a trevo machucado,as folhas de alecrim desde há muito guardadas não se sabe por quem nalgum móvel antigo...
Mas é preciso, também, que seja como abrir uma janela
e respirar-te, azul e luminosa, no ar.
É preciso a saudade para eu sentir como sinto - em mim - a presença misteriosa da vida...Mas quando surges
és tão outra e múltipla e imprevista que nunca te pareces com o teu retrato...
E eu tenho de fechar meus olhos para ver-te.


Mario Quintana

terça-feira, 16 de setembro de 2008


Eu ficarei só como os veleiros nos portos silenciosos

Mas eu te possuirei mais que ninguém porque poderei partir.

E todas as lamentações do mar,

do vento, do céu, das aves,

das estrelas

Serão a tua voz presente,

a tua voz ausente, a tua voz serenizada.


Vinicius de Moraes

domingo, 7 de setembro de 2008


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Pai-Nosso...
Mãe-Nossa...

Pai...Mãe...de olhos mansos, sei que estás invisível em todas as coisas.
Que o teu nome me seja doce, a alegria do meu mundo.
Traze-nos as coisas boas em que tens prazer:
o jardins, as fontes,
as crianças,
o pão e o vinho,
os gestos ternos, as mãos desarmadas,
os corpos abraçados...
Sei que desejas dar-me o meu desejo mais fundo,
desejo cujo nome esqueci... mas tu não esqueces nunca.
Realiza pois o teu desejo para que eu possa rir.
Que o teu desejo se realize em nosso mundo,
da mesma forma como ele pulsa em ti.
Concede-nos contentamento nas alegrias de hoje:
o pão, a água, o sono...
Que nossos olhos sejam tão mansos para com os outros como os teus o são para conosco.
Porque,
se formos ferozes,
não poderemos acolher a tua bondade.
E ajuda-nos
para que não sejamos enganados pelos desejos maus.
E livra-nos
daquele que carrega a morte dentro dos próprios olhos.
Amém.

Rubem Alves

sábado, 6 de setembro de 2008


"Poeta é um ente que lambe as palavras e depois se alucina."

Manoel de Barros

"Que eu seja novamente aquele que ergue do chão o pássaro ferido e, no calor de sua mão, dá-lhe de morrer em paz; aquele que, em sua eterna peregrinação em busca da vida, ajuda o carnponês a consertar a roda do seu carro..."Que me seja dado, em minhas andanças, restituir a cada ser humano o consolo de chorar dias de lágrimas; e depois levá-lo lá onde existe a luz e chorar eu próprio ante a beleza do seu pranto ao sol..."

Vinícius do Moraes

sexta-feira, 5 de setembro de 2008


"...é certo, se isso lhe serve de consolação, que se antes de cada acto nosso nos puséssemos a prever todas as consequencias dele, a pensar nelas a sério, primeiro as imediatas, depois as prováveis, depois as possíveis, depois as imagináveis, não chegaríamos sequer a mover-nos de onde o primeiro pensamento nos tivesse feito parar. Os bons e os maus resultados dos nossos ditos e obras vão-se distribuindo, supõe-se que de uma forma bastante uniforme e equilibrada, por todos os dias do futuro, incluindo aqueles, infindáveis, em que já cá não estaremos para poder comprová-los, para congratular-nos, ou pedir perdão, aliás, há quem diga que isso é que é a imortalidade que tanto se fala..."
pg84 - Ensaio Sobre a Cegueira - Saramago

"...Passou tempo e eu não esperava que, um dia, chegasses.
Mas passou tempo.
Um dia, chegaste.Caminhávamos na rua.
Eu pensava em qualquer coisa que não era a ideia de chegares,
como uma avalanche que arrasta tudo à sua passagem,
como uma multidão a pisar cada pedaço de terra.
E a rua ficou deserta quando nos aproximamos.
Éramos desconhecidos no instante em que olhamos um para o outro.
Passou esse instante e, dentro de nós conhecemo-nos.
Chegaste.
Eu não te esperava.
Contigo trouxeste a ternura, o desejo e, mais tarde, o medo.
Chegaste e eu não conhecia essa ternura, esse desejo.
Em casa, no meu quarto, neste quarto,
revi os teus olhos na memória, a ternura, o desejo.
E, depois, aquilo que eu sabia, o medo.
E passou tempo.
Eu e tu sentimos esse tempo a passar mas, quando nos encontrámos de novo,soubemos que não nos tínhamos separado..."

José Luis Peixoto

sábado, 12 de julho de 2008




Nenhum dos meus caminhos guarda a tua sombra: só as minhas mãos ficaram maiores com a tua ausência e andam perdidas, não sabendo escontrar-se uma com a outra.
O ventre de cada dia é um espelho a recordar-te-- um espelho onde o meu rosto não cabe -e eu avanço, petrificado de silêncio,como se me chamasses,tendo-te cada momento mais distante nas asas cansadas dos olhos sonolentos.
Se descendo minhas pálpebras prendesse a tua imagem, jamais amanheceria para mim.Se as minhas mãos decepadas pudessem encontrar-te, dar-te-ia minha mãos como espada para o teu regresso.
Assim, gasto-me nos longos túneis desta ânsia,certo de que jamais estarei presente para ti em cada estrela que descobrires na noite.





José Bento, in 'Silabário'

quarta-feira, 11 de junho de 2008






"Os limites da tua língua são os limites do teu mundo;e portanto, o homem cuja linguagem é limitada vive como alguém na prisão, ao passo que quem tem amplo comando da linguagem, pode ser livre mesmo quando confinado na mais escura das masmorras"


(Livro:Rei Artur-Autor:Allan Massie)

terça-feira, 10 de junho de 2008




Fiz o caminho. Sem tomar direção, sem saber do caminho. Pé por pé, pé por si. Deixei que o caminho me escolhesse. Na travessia, só silêncio. O nenhuns-nada. O alegre, mesmo, era a gente viver devagarinho, miudinho, não se importando demais com coisa nenhuma. Nessa estrada, salvou-me a palavra. Como sabem ser duros os caminhos, pelos quais a gente vai, só pensando na volta.Se você escolheu o caminho não pode recusar a travessia...



guimarães rosa

domingo, 1 de junho de 2008

~Sobre a poeira:



Mas a poeira é só a vontade
que o chão tem de voar.


(Rita Apoena)

sábado, 31 de maio de 2008


Sobre o regador:
O regador é só uma mentira de chuva

que eu tenho de contar às flores,

todas as manhãs.


Rita Apoena

sexta-feira, 30 de maio de 2008




Diálogo:
- E você, por que desvia o olhar?

(Porque eu tenho medo de altura. Tenho medo de cair para dentro de você. Há nos seus olhos castanhos certos desenhos que me lembram montanhas, cordilheiras vistas do alto, em miniatura. Então, eu desvio os meus olhos para amarra-los em qualquer pedra no chão e me salvar do amor. Mas, hoje, não encontraram pedra. Encontraram flor. E eu me agarrei às pétalas o mais que pude, sem sequer perceber que estava plantada num desses abismos, dentro dos seus olhos.)

- Ah. Porque eu sou tímida.
Rita Apoena

sábado, 17 de maio de 2008


Nenhum dos meus caminhos guarda a tua sombra:

só as minhas mãos ficaram maiores com a tua ausência

e andam perdidas,não sabendo escontrar-se uma com a outra.
O ventre de cada dia é um espelho a recordar-te-

- um espelho onde o meu rosto não cabe -e eu avanço, petrificado de silêncio,como se me chamasses, tendo-te cada momento mais distante

nas asas cansadas dos olhos sonolentos.
Se descendo minhas pálpebras prendesse a tua imagem,

jamais amanheceria para mim.Se as minhas mãos decepadas pudessem encontrar-te,

dar-te-ia minha mãos como espada para o teu regresso.
Assim, gasto-me nos longos túneis desta ânsia,

certo de que jamais estarei presente para ti em cada estrela que descobrires na noite.



José Bento

Um dia, quando a ternura for a única regra da manhã,

acordarei entre os teus braços. a tua pele será talvez demasiado bela.

E a luz compreenderá a impossível compreensão do amor.

Um dia, quando a chuva secar na memória, quando o inverno fortão distante,

quando o frio responder devagar com a voz arrastadade um velho,

estarei contigo e cantarão pássaros no parapeito danossa janela.

Sim, cantarão pássaros, haverá flores,

mas nada disso será culpa minha, porque eu acordarei nos teus braços

e não direi nem uma palavra,

nem o príncipio de uma palavra,

para não estragara perfeição da felicidade.


pra você, que deixou minha vida mas não deixou meu pensamento nem por um dia sequer.


A UM AUSENTE


Tenho razão de sentir saudade,tenho razão de te acusar.Houve um pacto implícito que rompeste e sem te despedires foste embora.Detonaste o pacto.Detonaste a vida em geral, a comum aquiescência de viver e explorar os rumos de obcuridade sem prazo sem consulta sem provocação até ao limite das folhas caídas na hora de cair.
Antecipaste a hora.Teu ponteiro enlonqueceu, enlouquecendo nossas horas.Que poderias ter feito de mais grave do que o ato sem continuação, o ato em si,o ato que não ousamos nem sabemos ousar porque depois dele não há nada?
Tenho razão para sentir saudade de ti,de nossa convivência em falas camaradas,simples apertar de mãos, nem isso, voz modulando sílabas conhecidas e banais que eram certeza e segurança.
Sim, tenho saudades. Sim, acuso-te porque fizeste o não previsto nas leis da amizade, do amor e da natureza nem me deixaste sequer o direito de indagar porque o fizeste, porque te foste.


Carlos Drummond de Andrade


imagem - Edvard Munch - Ashes, 1894

quarta-feira, 14 de maio de 2008

Aos poucos, quem sabe, irei percebendo.
Por enquanto o primeiro prazer tímido que estou tendo é o de constatar que perdi o medo do feio. E essa perda é de uma tal bondade. É uma doçura.

Clarice Lispector

As horas são-me escassas:
dai-me o tempo
ainda que o não mereça
que eu quero
ter outra vez
idades que eu tive
para ser sempre
eu e a vida
nesta dança desencontrada .
Mia Couto

terça-feira, 13 de maio de 2008


(Escre)ver-me
nunca escrevi.
Sou apenas um tradutor de silêncios.
A vida tatuou-me nos olhos janelas em que me transcrevo e apago. Sou um soldado que se apaixona pelo inimigo que vai matar .

Mia Couto

Que lindas são as coisas antigas que se tornaram opacas e amarelecidas porque sobre elas passou a vida, porque crescemos e vivemos tocando-as, fixando na retina as suas formas, fazendo-as participar dos nossos segredos, ... dos sonhos de felicidade. Foram sonhos que nos fizeram cerrar os olhos para abri-los depois em frente à velha cômoda, à mesa antiquada ... que durante várias décadas, nos farão recordar a esperança perdida ou realizada, a alegria e o sofrimento nascidos junto àqueles velhos móveis e objetos...Que tremenda traição cometemos quando substituímos algumas dessas coisas por outra nova e luzidia, que levará ainda vários anos até adquirir a alma que lhe transmitiremos.

Clarice LispectoR

quarta-feira, 12 de março de 2008

meu coração teu


Meu coração é uma planta carnívora morta de fome.

Meu coração é uma velha carpideira portuguesa,

coberta de preto, cantando um fado lento e cheio de gemidos –

Ai de mim! Ai, ai de mim!Meu coração é um poço de mel,

no centro de um jardim encantado,

alimentando beija-flores que, depois de prová-lo,

transformam-se magicamente em cavalos brancos alados que voam para longe

, em direção à estrela Vega.

Levam junto quem me ama, me levam junto também.

Faquir involuntário, cascata de champanha, púrpura rosa de Cairo,

sapato de sola furada, verso de Mário Quintana,

vitrina vazia, navalha afiada,

figo maduro, papel crepom, cão uivando para a lua,

ruína, simulacro, varinha de incenso.

Acesa, aceso – vasto, vivo:

meu coração teu.


Caio Fernando Abreu

segunda-feira, 10 de dezembro de 2007




"O tempo, subitamente solto pelas ruas e pelos dias,como a onda de uma tempestade a arrastar o mundo,mostra-me o quanto te amei antes de te conhecer.Eram os teus olhos, labirintos de água, terra, fogo, ar,que eu amava quando imaginava que amava. Era a tua voz quedizia as palavras da vida. Era o teu rosto.Era a tua pele. Antes de te conhecer, existias nas árvorese nos montes e nas nuvens que olhava ao fim da tarde.Muito longe de mim, dentro de mim, eras tu a claridade."José Luis Peixoto

domingo, 11 de novembro de 2007


Nós nos amaremos docemente,Nesta luz, neste encanto, neste medo:Nós nos amaremos livrementeNo dia marcado pelos deuses.
Nós nos amaremos com verdadePorque estas almas já se conheciam:nós nos amaremos para sempreAlém da concreta realidade.
Nós nos amaremos lindamente,nós nos amaremos como poucos.no teu tempo.
Lya Luft