imagens

as imagens mostradas aqui são cacos colhidos, na sua grande maioria, de sites da internet. existem cacos colhidos ao acaso, que posso ter deixado de mencionar onde os colhi, tal minha ignorância ou encantamento. desculpem por isso. algumas imagens são minhas, do meu imenso baú de memórias...







sábado, 18 de abril de 2009


Dizem que a separação nunca é um núcleo, uma urgência. Dizem que ela começa em seu avesso. E que é justamente no momento mais suave, o primeiro encontro, o primeiro olhar, que a separação começa a existir. Eu prefiro acreditar que a separação nunca termina, e que o último dia, a última noite, é um instante que se repete, a cada espera, a cada volta, cada vez que sinto a tua falta, cada vez que pronuncio teu nome. Eu acredito que, ao te chamar, uma estratégia, um encanto, eu seja capaz de fazer com que você se vire e olhe, e, sem perceber, estenda entre nós um atalho, uma ponte.


Carola Saavedra, in “Flores Azuis”

Encostei-me a ti,
sabendo que eras somente onda.
Sabendo bem que eras nuvem
depus a minha vida em ti.
Como sabia bem tudo isso,
e dei-me ao teu destino frágil,
fiquei sem poder chorar,
quando caí.


Cecília Meirelles

quarta-feira, 15 de abril de 2009



Usámos a dois: estações do ano, livros e uma música.
As chaves, as taças de chá, o cesto do pão, lençóis de linho e uma cama.
Um enxoval de palavras, de gestos, trazidos, utilizados, gastos.
Cumprimos o regulamento de um prédio. Dissémos. Fizémos. E estendemos sempre a mão.

Apaixonei-me por Invernos, por um septeto vienense e por Verões.
Por mapas, por um ninho de montanha, uma praia e uma cama.
Ritualizei datas, declarei promessas irrevogáveis, idolatrei o indefinido e senti devoção perante um nada,

(— o jornal dobrado, a cinza fria, o papel com um apontamento)sem temores religiosos, pois a igreja era esta cama.

De olhar o mar nasceu a minha pintura inesgotável.
Da varanda podia saudar os povos, meus vizinhos.
Ao fogo da lareira, em segurança, o meu cabelo tinha a sua cor mais intensa.
A campainha da porta era o alarme da minha alegria.

Não te perdi a ti,
perdi o mundo.


Perda - Ingeborg Bachmann, in "o tempo aprazado" assírio & alvim (1992)

Despedir-se de um amor é despedir-se de si mesmo. É o arremate de uma história que terminou, externamente, sem nossa concordância, mas que precisa também sair de dentro da gente.

Martha Medeiros

Pensar em ti é coisa delicada.
É um diluír de tinta espessa e farta
e o passá-la em finíssima agua
com um pincel de marta.
Um pesar grãos de nada em mínima balança
um armar de arames cauteloso e atento,
um proteger a chama contra o vento,
pentear cabelinhos de criança.
Um desembaraçar de linhas de costura,
um correr sobre lã que ninguém saiba e ouça
um planar de gaivota como um lábio a sorrir,
Penso em ti com tamanha ternura
como se fosses vidro ou película de louça
que apenas como o pensar te pudesses partir.

António Gedeão

Lembro-me de ti
Nesse instante absoluto,
A vida conduzida por um fio de música.
Intenso e delicado, ele vai-nos fechando num casulo
Onde tudo será permitido.
Se é só isso que podemos ter,
Que seja forte.
Que seja único.
Tão íntimo quanto ouvirmos a mesma melodia,
Tendo o mesmo - esplêndido - pensamento.

Lya Luft

terça-feira, 7 de abril de 2009


“Da vocação:

Na vocação para a vida está incluído o amor, inútil disfarçar, amamos a vida. E lutamos por ela dentro e fora de nós mesmos. Principalmente fora, que é preciso um peito de ferro para enfrentar essa luta na qual entra não só fervor mas uma certa dose de cólera, fervor e cólera. Não cortaremos os pulsos, ao contrário, costuraremos com linha dupla todas as feridas abertas. E tem muita ferida porque as pessoas estão bravas demais, até as mulheres, umas santas, lembra?

Costurar as feridas e amar os inimigos que odiar faz mal ao fígado, isso sem falar no perigo da úlcera, lumbago, pé frio. Amar no geral e no particular e quem sabe nos lances desse xadrez-chinês imprevisível. Ousar o risco. Sem chorar, aprendi bem cedo os versos exemplares, não chores que a vida/é luta renhida. Lutar com aquela expressão de criança que vai caçar borboleta, ah, como brilham os olhos de curiosidade. Sei que as borboletas andam raras mas se sairmos de casa certos de que vamos encontrar alguma… O importante é a intensidade do empenho nessa busca e em outras. Falhando, não culpar Deus, oh! por que Ele me abandonou? Nós é que O abandonamos quando ficamos mornos. Quando a vocação para a vida começa a empalidecer e também nós, os delicados, os esvaídos. Aceitar o desafio da arte. Da loucura. Romper com a falsa harmonia, com o falso equilíbrio e assim, depois da morte - ainda intensos - seremos um fantasminha claro de amor.”

Trecho que integra o livro de fragmentos A disciplina do amor da Lygia Fagundes Telles.

segunda-feira, 30 de março de 2009


Nós merecemos a morte,
porque somos humanos
e a guerra é feita pelas nossas mãos,
pelo nossa cabeça embrulhada em séculos de sombra,
por nosso sangue estranho e instável, pelas ordens
que trazemos por dentro, e ficam sem explicação.


cecília meireles

domingo, 22 de março de 2009


O vento do meu espírito
soprou sobre a vida
e tudo que era efêmero
se desfez.
E ficaste só tu, que és eterno...


Cecilia Meireles

quinta-feira, 12 de março de 2009


Já o disse em Hiroshima Mon Amour: o que conta não é a manifestação do desejo, da tentativa amorosa. O que conta é o inferno da história única. Nada a substitui, nem uma segunda história. Nem a mentira. Nada. Quanto mais a provocamos, mais ela foge. Amar é amar alguém. Não há um múltiplo da vida que possa ser vivido. Todas as primeiras histórias de amor se quebram e depois é essa história que transportamos para as outras histórias. Quando se viveu um amor com alguém, fica-se marcado para sempre e depois transporta-se essa história de pessoa a pessoa. Nunca nos separamos dele.
Não podemos evitar a unicidade, a fidelidade, como se fôssemos, só nós, o nosso próprio cosmo. Amar toda a gente, como proclamam algumas pessoas e os cristãos, é embuste. Essas coisas não passam de mentiras. Só se ama uma pessoa de cada vez. Nunca duas ao mesmo tempo.

Marguerite Duras

quarta-feira, 11 de março de 2009


“A vida se retrata no tempo formando um vitral, de desenho sempre incompleto, de cores variadas, brilhantes, quando passa o sol. Pedradas ao acaso acontece de partir pedaços ficando buracos, irreversíveis. Os cacos se perdem por aí. Às vezes eu encontro cacos de vida que foram meus, que foram vivos. Examino-os atentamente tentando lembrar de que resto faziam parte. Já achei caco pequeno e amarelinho que ressuscitou de mentira, um velho amigo. Achei outro pontudo e azul, que trouxe em nuvens um beijo antigo. Houve um caco vermelho que muito me fez chorar, sem que eu lembrasse de onde me pertencera."

maria antonia de oliveira

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2009


" E a tua voz ouço-a agora, vinda de longe, como o som do mar imaginado dentro de um búzio. Vejo-te através da espuma quebrada na areia das praias, num mar de Setembro, com cheiro a algas e a iodo. E de novo acredito que nada do que é importante se perde verdadeiramente. Apenas nos iludimos, julgando ser donos das coisas, dos instantes e dos outros. Comigo caminham todos os mortos que amei, todos os amigos que se afastaram, todos os dias felizes que se apagaram. Não perdi nada, apenas ilusões de que tudo podia ser meu pra sempre. "

Miguel Sousa Tavares - in Não te Deixarei Morrer

É preciso que a saudade desenhe tuas linhas perfeitas,
teu perfil exato e que, apenas, levemente, o vento
das horas ponha um frêmito em teus cabelos...


É preciso que a tua ausência trescale
sutilmente, no ar, a trevo machucado,
as folhas de alecrim desde há muito guardadas
não se sabe por quem nalgum móvel antigo...


Mas é preciso, também, que seja como abrir uma janela
e respirar-te, azul e luminoso, no ar.


É preciso a saudade para eu sentir
como sinto - em mim - a presença misteriosa da vida...
Mas quando surges és tão outro e múltiplo e imprevisto
que nunca te pareces com o teu retrato...


E eu tenho de fechar meus olhos para ver-te.
[Mario Quintana](adaptado)

domingo, 8 de fevereiro de 2009


O mundo que venci deu-me um amor

O mundo que venci deu-me um amor,
Um troféu perigoso, este cavalo
Carregado de infantes couraçados.
O mundo que venci deu-me um amor
Alado galopando em céus irados,
Por cima de qualquer muro de credo,
Por cima de qualquer fosso de sexo.
O mundo que venci deu-me um amor
Amor feito de insulto e pranto e riso,
Amor que força as portas dos infernos,
Amor que galga o cume ao paraíso.
Amor que dorme e treme. Que desperta
E torna contra mim, e me devora
E me rumina em campos de vitória...

Mário Faustino

... então os meus braços não vão ser suficientes para abraçar você
e a minha voz vai querer dizer tanta,
mas tanta coisa que eu vou ficar calada,
um tempo enorme só olhando você sem dizer nada,
só olhando e pensando,
meu Deus mas como você me dói de vez em quando.
(Caio Fernando Abreu)

segunda-feira, 19 de janeiro de 2009

domingo, 4 de janeiro de 2009

sábado, 3 de janeiro de 2009



texto incluído na imagem por tina

sexta-feira, 2 de janeiro de 2009

quinta-feira, 1 de janeiro de 2009


“Canção da mirada secreta”

Foram-se os amores que tive
ou me tiveram. Partiram
num cortejo silencioso e iluminado.
a solidão me ensina
a não acreditar na morte
nem demais na vida : cultivo
segredos num jardim onde estamos eu, os sonhos idos,
os velhos amores e os seus recados,
e os olhos deles que ainda brilham
como pedras de cor entre as raízes.

Lia Luft

sábado, 27 de dezembro de 2008




Eu não tinha este rosto de hoje,
assim calmo, assim triste, assim magro,
nem estes olhos tão vazios,
nem o lábio amargo.

Eu não tinha estas mãos sem força,
tão paradas e frias e mortas;
eu não tinha este coração
que nem se mostra.

Eu não dei por esta mudança,
tão simples, tão certa, tão fácil:
- Em que espelho ficou perdida a minha face?

Cecília Meireles

quinta-feira, 25 de dezembro de 2008


Seja eu de novo a tua sombra, teu desejo,

tua noite sem remédio

tua virtude, tua carência

eu

que longe de ti sou fraco

eu

que já fui água, seiva vegetal

sou agora gota trémula, raiz exposta



Traz

de novo, meu amor,

a transparência da água

dá ocupação à minha ternura vadia

mergulha os teus dedos

no feitiço do meu peito

e espanta na gruta funda de mim

os animais que atormentam o meu sono

Mia Couto

sexta-feira, 5 de dezembro de 2008


Os filhos crescem.
Desenha-se a existência em cada um,
os pais ficam olhando, que fazer?
E mesmo quando acertam, que é que muda?
Os filhos crescem
e não adianta se querer dar tudo,
nem a alma.
Desejam outras almas,
são outros.
Os filhos crescem.
Sem ler nossos romances para eles,
se metem em capítulos inéditos.
Já não são nós, se sentem vitoriosos.
E continuamos eles..."

(Paulo Hecker)

sábado, 29 de novembro de 2008



A sua lembrança me dói tanto
Eu canto pra ver
Se espanto esse mal
Mas só sei dizer
Um verso banal
Falar em você
Cantar você
É sempre igual

Sobrou desse nosso desencontro
Um conto de amor
Sem ponto final
Retrato sem cor
Jogado aos meus pés
E saudades fúteis
Saudades frágeis
Meros papéis


Não sei se você ainda é o mesmo
Ou se cortou os cabelos
Rasgou o que é meu
Se ainda tem saudades
E sofre como eu
Ou tudo já passou
Já tem um novo amor
Já me esqueceu

Desencontro ( Chico Buarque)

terça-feira, 25 de novembro de 2008


Eu conto as horas pra poder te ver
mas o relógio está de mal comigo.
Claudinho

sexta-feira, 21 de novembro de 2008





Voce á e rainha da dança, jovem e doce, de apenas 17 anos...
Eu amei o filme e especialmente esta cena. Toda mulher merece se sentir assim, em alguns momentos. Emocionante demais!!

terça-feira, 18 de novembro de 2008


Se as coisas são inatingíveis... ora!
Não é motivo para não querê-las...
Que tristes os caminhos se não fora
A mágica presença das estrelas!

Mario Quintana

domingo, 16 de novembro de 2008





... que eu vim pra não morrer, de tanto te esperar...

sexta-feira, 14 de novembro de 2008


Olha como a chuva cai
E molha a folha aqui na telha
Faz um som assim
Um barulinho bom
Faz um som assim
Um barulinho bom


Marisa Monte

quarta-feira, 29 de outubro de 2008



"Havia, em algum lugar, um parque cheio de pinheiros e tílias, e uma velha casa que eu amava. Pouco importava que ela estivesse distante ou próxima, que não pudesse cercar de calor o meu corpo, nem me abrigar; reduzida apenas a um sonho, bastava que ela existisse para que a minha noite fosse cheia de sua presença. Eu não era mais um corpo de homem perdido no areal. Eu me orientava. Era o menino daquela casa, cheio da lembrança de seus perfumes, cheio da fragrância dos seus vestíbulos, cheio das vozes que a haviam animado."

(Antoine de Saint-Exupéry)

terça-feira, 28 de outubro de 2008


"Difícil fotografar o silêncio.
Entretanto tentei. Eu conto:
Madrugada a minha aldeia estava morta.
Não se via ouvia um barulho, ninguém passava entre as casas.
Eu estava saindo de uma festa.
Eram quase quatro da manhã.
Ia o Silêncio pela rua carregando um bêbado.
Preparei minha máquina.
O silêncio era um carregador?
Estava carregando o bêbado.
Fotograei esse carregador.
Tive outras visões naquela madrugada.
Preparei minha máquina de novo.
Tinha um perfume de jasmim no beiral do sobrado.
Fotografei o perfume.
Vi uma lesma pregada na existência mais do que na pedra.
Fotografei a existência dela.
Vi ainda um azul-perdão no olho de um mendigo.
Fotografei o perdão.
Olhei uma paisagem velha a desabar sobre uma casa.
Fotografei o sobre.
Foi difícil fotografar o sobre.
...
A foto saiu legal."

Manoel de Barros

segunda-feira, 27 de outubro de 2008


Acordo com o teu nome nos meus lábios

- amargo beijo esse que o tempo dá sem aviso

a quem não esquece.

Maria do Rosário Pedreira

Não te quero ter, pois em meu ser tudo estaria terminado.

Quero só que surjas em mim como a fé nos desesperados.

Vinícius de Moraes

Sei que é meio idiota, mas gosto de pensar desse jeito, e se estou em pé no ônibus solto um pouco as mãos daquela barra de ferro para meu corpo balançar como se estivesse a bordo de um navio ou de você. Fecho os olhos, faz tanto bem, você não sabe. Suspiro tanto quando penso em você, chorar só choro às vezes, e é tão freqüente.

Caio Fernando Abreu

terça-feira, 14 de outubro de 2008


Deus não é a palavra Deus

Deus não é a palavra Deus

e andorinha,a palavra andorinha.

Há um poço

que não entrana palavra poço.

O amor, na palavra amor.

E Deus é tudo isso.


Carlos Nejar

sábado, 11 de outubro de 2008



Foram-se os amores que tive

ou me tiveram.

Partiram

num cortejo silencioso e iluminado.

A solidão me ensina

a não acreditar na morte

nem demais na vida: cultivo

segredos num jardim

onde estamos eu,

os sonhos idos,

os velhos amores e os seus recados,

e os olhos deles que ainda brilham

como pedras de cor entre as raízes.


(lia luft)
Mirada Secreta


Foram-se os amores que tive

ou me tiveram.

Partiram

num cortejo silencioso e iluminado.

A solidão me ensina

a não acreditar na morte

nem demais na vida:

Cultivo segredos num jardim

onde estamos eu, os sonhos idos,

os velhos amores e os seus recados,

e os olhos deles que ainda brilham

como pedras de cor entre as raízes.



Lya Luft

sexta-feira, 10 de outubro de 2008

quinta-feira, 9 de outubro de 2008


E veio o sono, vencendo a luta de horas. E no sonho estava teu abraço, tua imagem, que eu luto por lembrar detalhes que, acordada, pensava já ter esquecido. Mas no sonho estavam lá seu rosto, sorriso, pele... tudo como sempre soube, como sempre amei. Sua figura magra, suave, sua voz doce, seu riso de música e o abraço, o abraço que é o que mais me faz falta. E meu coração fez festa, tanta festa que com seu barulho eu acordei, acordei no meio do abraço tão e tantas vezes desejado... Meu coração, este bobo, sempre me traindo.


tina, cheia, transbordando de saudades.

sexta-feira, 26 de setembro de 2008

PRESENÇA

É preciso que a saudade desenhe tuas linhas perfeitas,
teu perfil exato e que, apenas, levemente,
o vento das horas ponha um frêmito em teus cabelos...
É preciso que a tua ausência trescale sutilmente,
no ar, a trevo machucado,as folhas de alecrim desde há muito guardadas não se sabe por quem nalgum móvel antigo...
Mas é preciso, também, que seja como abrir uma janela
e respirar-te, azul e luminosa, no ar.
É preciso a saudade para eu sentir como sinto - em mim - a presença misteriosa da vida...Mas quando surges
és tão outra e múltipla e imprevista que nunca te pareces com o teu retrato...
E eu tenho de fechar meus olhos para ver-te.


Mario Quintana

terça-feira, 16 de setembro de 2008


Eu ficarei só como os veleiros nos portos silenciosos

Mas eu te possuirei mais que ninguém porque poderei partir.

E todas as lamentações do mar,

do vento, do céu, das aves,

das estrelas

Serão a tua voz presente,

a tua voz ausente, a tua voz serenizada.


Vinicius de Moraes

domingo, 7 de setembro de 2008


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Pai-Nosso...
Mãe-Nossa...

Pai...Mãe...de olhos mansos, sei que estás invisível em todas as coisas.
Que o teu nome me seja doce, a alegria do meu mundo.
Traze-nos as coisas boas em que tens prazer:
o jardins, as fontes,
as crianças,
o pão e o vinho,
os gestos ternos, as mãos desarmadas,
os corpos abraçados...
Sei que desejas dar-me o meu desejo mais fundo,
desejo cujo nome esqueci... mas tu não esqueces nunca.
Realiza pois o teu desejo para que eu possa rir.
Que o teu desejo se realize em nosso mundo,
da mesma forma como ele pulsa em ti.
Concede-nos contentamento nas alegrias de hoje:
o pão, a água, o sono...
Que nossos olhos sejam tão mansos para com os outros como os teus o são para conosco.
Porque,
se formos ferozes,
não poderemos acolher a tua bondade.
E ajuda-nos
para que não sejamos enganados pelos desejos maus.
E livra-nos
daquele que carrega a morte dentro dos próprios olhos.
Amém.

Rubem Alves

sábado, 6 de setembro de 2008


"Poeta é um ente que lambe as palavras e depois se alucina."

Manoel de Barros

"Que eu seja novamente aquele que ergue do chão o pássaro ferido e, no calor de sua mão, dá-lhe de morrer em paz; aquele que, em sua eterna peregrinação em busca da vida, ajuda o carnponês a consertar a roda do seu carro..."Que me seja dado, em minhas andanças, restituir a cada ser humano o consolo de chorar dias de lágrimas; e depois levá-lo lá onde existe a luz e chorar eu próprio ante a beleza do seu pranto ao sol..."

Vinícius do Moraes

sexta-feira, 5 de setembro de 2008


"...é certo, se isso lhe serve de consolação, que se antes de cada acto nosso nos puséssemos a prever todas as consequencias dele, a pensar nelas a sério, primeiro as imediatas, depois as prováveis, depois as possíveis, depois as imagináveis, não chegaríamos sequer a mover-nos de onde o primeiro pensamento nos tivesse feito parar. Os bons e os maus resultados dos nossos ditos e obras vão-se distribuindo, supõe-se que de uma forma bastante uniforme e equilibrada, por todos os dias do futuro, incluindo aqueles, infindáveis, em que já cá não estaremos para poder comprová-los, para congratular-nos, ou pedir perdão, aliás, há quem diga que isso é que é a imortalidade que tanto se fala..."
pg84 - Ensaio Sobre a Cegueira - Saramago

"...Passou tempo e eu não esperava que, um dia, chegasses.
Mas passou tempo.
Um dia, chegaste.Caminhávamos na rua.
Eu pensava em qualquer coisa que não era a ideia de chegares,
como uma avalanche que arrasta tudo à sua passagem,
como uma multidão a pisar cada pedaço de terra.
E a rua ficou deserta quando nos aproximamos.
Éramos desconhecidos no instante em que olhamos um para o outro.
Passou esse instante e, dentro de nós conhecemo-nos.
Chegaste.
Eu não te esperava.
Contigo trouxeste a ternura, o desejo e, mais tarde, o medo.
Chegaste e eu não conhecia essa ternura, esse desejo.
Em casa, no meu quarto, neste quarto,
revi os teus olhos na memória, a ternura, o desejo.
E, depois, aquilo que eu sabia, o medo.
E passou tempo.
Eu e tu sentimos esse tempo a passar mas, quando nos encontrámos de novo,soubemos que não nos tínhamos separado..."

José Luis Peixoto

sábado, 12 de julho de 2008




Nenhum dos meus caminhos guarda a tua sombra: só as minhas mãos ficaram maiores com a tua ausência e andam perdidas, não sabendo escontrar-se uma com a outra.
O ventre de cada dia é um espelho a recordar-te-- um espelho onde o meu rosto não cabe -e eu avanço, petrificado de silêncio,como se me chamasses,tendo-te cada momento mais distante nas asas cansadas dos olhos sonolentos.
Se descendo minhas pálpebras prendesse a tua imagem, jamais amanheceria para mim.Se as minhas mãos decepadas pudessem encontrar-te, dar-te-ia minha mãos como espada para o teu regresso.
Assim, gasto-me nos longos túneis desta ânsia,certo de que jamais estarei presente para ti em cada estrela que descobrires na noite.





José Bento, in 'Silabário'

quarta-feira, 11 de junho de 2008






"Os limites da tua língua são os limites do teu mundo;e portanto, o homem cuja linguagem é limitada vive como alguém na prisão, ao passo que quem tem amplo comando da linguagem, pode ser livre mesmo quando confinado na mais escura das masmorras"


(Livro:Rei Artur-Autor:Allan Massie)

terça-feira, 10 de junho de 2008




Fiz o caminho. Sem tomar direção, sem saber do caminho. Pé por pé, pé por si. Deixei que o caminho me escolhesse. Na travessia, só silêncio. O nenhuns-nada. O alegre, mesmo, era a gente viver devagarinho, miudinho, não se importando demais com coisa nenhuma. Nessa estrada, salvou-me a palavra. Como sabem ser duros os caminhos, pelos quais a gente vai, só pensando na volta.Se você escolheu o caminho não pode recusar a travessia...



guimarães rosa

domingo, 1 de junho de 2008

~Sobre a poeira:



Mas a poeira é só a vontade
que o chão tem de voar.


(Rita Apoena)